UM DRINK COM CACÁ TOLEDO
entrevista
com Cacá Toledo
Por
Clóvis
Tôrres
Cacá Toledo tem 31 anos, é ator, diretor, produtor e apaixonado por leituras dramáticas. Estudou Artes Cênicas na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP –, e profissionalizou-se em Campinas, onde integrou diversos espetáculos e criou a Cia Aberta de Teatro. Mudou-se para São Paulo em 2004 e criou e dirigiu o projeto “DRINK COM AS ESTRELAS” (em cartaz na internet) em parceria com Alvise Camozzi, o espetáculo “BAR”, de Spiro Scimone, e os espetáculos “Otelo Para Todos os Brasileiros” E “O Dia Em Que a Terra Parou”, com a dupla de comediantes “Os Longilíneos”. Foi assistente de direção de Yara de Novaes na montagem de “A Serpente”, de Nelson Rodrigues. Ao lado de Gabriel Villela, com quem colabora como diretor assistente, integrou a equipe de direção da ópera “Don Carlo” e dos espetáculos “Esperando Godot” e “Salmo 91”.
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| Cacá Toledo em leitura no Letras. |
Atuou nos espetáculos "Drink com as Estrelas" (em cartaz na internet), na ópera "Don Carlo", direção de Gabriel Villela e na "I Olimpíada de Teatro Instantâneo", com direção de Álvaro Cueva, Adriano Cypriano e Marcos Bermann. Como produtor executivo realizou os espetáculos "Západ - A Tragédia do Poder", direção de Maria Thaís, "Leonce e Lena" e "Esperando Godot", direção de Gabriel Villela, "Honestamente", direção de Alvise Camozzi, "A Serpente", direção de Yara de Novaes, a exposição "Meninos Quietos - Um Olhar Sobre os Brinquedos do Sertão" e em parceria com Gabriel Paiva os concertos "Um Sopro de Brasil" e "Violões do Brasil", com curadoria e direção de Myriam Taubkin. Atualmente trabalha como diretor assistente e desenvolve a trilha sonora para o espetáculo "Mãe é Karma", com texto e direção de Elias Andreatto.
Com toda esta experiência a agitação profissional, ele diz que “o melhor do fazer teatral é o processo. O período de ensaios. São os momentos mais marcantes, que ficam na memória. Tudo é ali (...)” Diz também que a direção, no seu caso, é um desdobramento da interpretação. “Acredito que quanto mais eu consiga dominar os mecanismos e elementos do Espetáculo como diretor, saberei manipulá-los depois, como intérprete. E gosto de atores. De perceber como os outros atores funcionam. De administrar seus conflitos, de conduzi-los no momento da criação. Gosto de lidar com pessoas (...) O assistente tem que compreender que seu trabalho deve obedecer a um raciocínio técnico e não artístico. Que seu objetivo é que a idéia do diretor se concretize, independente de seu julgamento. Como dizem na periferia, tem que ser humildade. Por isso, geralmente os assistentes de direção são jovens. Porque ainda estão desenvolvendo autonomia. É muita responsabilidade para uma função que nem sempre tem compensações financeiras. Mas um bom assistente vale ouro”. Confira o quê este jovem agitado diz nesta entrevista ao Letras Em Cena. Saúde!
Letras em Cena: Cacá, você é um jovem ator e tem se aventurado também em direção, fazendo assistência etc. Como você avalia esta profissão hoje?
O número de pessoas interessadas e dispostas a trabalhar com direção teatral e o status dessa profissão, ao meu ver, tem aumentado, nas escolas, nos grupos, entre pessoas com formação em outras áreas que não teatro. Isso diversifica a utilização de espaços, o tratamento dos textos, as buscas estéticas. E o teatro carece de liderança. Por isso pinta muita gente. Tem sido assim também no cinema. Tem muita gente querendo fazer e pouca gente disposta a pagar o pato. Então, pra você formar um núcleo ou um grupo e lançar um projeto próprio é um pulo. Basta ter iniciativa e espírito de liderança. Mas uma coisa é você conduzir a montagem de um espetáculo, outra coisa é liderar a viabilização de um projeto. Por esse motivo, o diretor de hoje tem de estar inteirado tanto com os modos de produção quanto com as vertentes estéticas que utiliza em seu trabalho. Tem que saber viabilizar os caminhos, encontrar as brechas dentro da estrutura dos mecanismos culturais do local onde trabalha para conseguir inserir o seu projeto.
O diretor assistente ou assistente de direção é uma função que se vem desenvolvendo e se fazendo cada vez mais necessária a um mercado que impõe um tempo menor de trabalho e o mesmo nível de qualidade. Um bom assistente deve deixar seu diretor seguro e, por isso, é a pessoa que deve ter o domínio de toda a base e estrutura do espetáculo. E isso deve ser aplicado a tudo, da criação à técnica. Da história do teatro à arquitetura teatral. Tem que saber fazer o meio de campo entre a sala de ensaio e as estruturas externas da produção, e, finalmente, saber lidar com a equipe em trabalho, dirigir enfim. Mas o assistente tem que compreender que seu trabalho deve obedecer a um raciocínio técnico e não artístico. Que seu objetivo é que a idéia do diretor se concretize, independente de seu julgamento. Como dizem na periferia, tem que ter humildade. Por isso, geralmente os assistentes de direção são jovens. Porque ainda estão desenvolvendo autonomia. É muita responsabilidade para uma função que nem sempre tem compensações financeiras. Mas um bom assistente vale ouro. Pessoalmente, desde que trabalho como assistente consigo levar meu trabalho em paralelo ao de outros diretores sem grandes problemas e, poder praticar esse exercício de influência x neutralidade é bem interessante. Como assistente tive a oportunidade de me aprofundar em direção de grandes projetos, no que sou carinhosamente grato ao Gabriel Villela, diretor com quem colaboro desde minha chegada a São Paulo, em 2004. Através dessa função conheci grandes artistas e participei de espetáculos dos quais tenho muito orgulho.
Letras em Cena: Como se descobriu artista?
Tem muito a ver com minha formação e amadurecimento dentro da escola, na Unicamp, pois na época, fazer teatro lá dentro, para mim, era também uma atitude política. No final do primeiro ano, em 1995, fiz parte de uma montagem de “O Juiz de Paz na Roça” e nos apresentamos em um presídio em Hortolândia-SP, para detentos em regime semi-aberto. Apesar do espetáculo ser muito simples, a reação da platéia foi uma loucura. Participavam de todos os momentos dos personagens com aplausos e berros e, claro, torciam abertamente pela queda do juiz. Foi aí que me liguei que o teatro era uma coisa tão poderosa. A partir do segundo ano formamos um grupo de teatro ali dentro do Departamento de Artes Cênicas. Era uma época em que surgiam também outros grupos como a Boa Cia, Os Fofos Encenam e a Cia Teatro Balagan. Fizemos umas pequenas peças, traçamos um plano de estudos, comecei a freqüentar seminários e coisas do tipo. Fiquei defasado em duas disciplinas do ano anterior, o que me proporcionou muitas “janelas”. Conheci um pessoal do curso de artes plásticas e comecei a fazer performances. Fazia parte de movimentos políticos dentro da universidade. O grupo, que era o “Teatro dos Bolinhos de Arroz” e que depois se metamorfoseou em “O Povinho” começou a se apresentar em festivais e em espaços fora da Unicamp. Dentro do curso, dávamos início ao natural enfrentamento com os professores. Éramos super do contra e nossas encenações buscavam discutir, satirizar e ironizar as formas de administração e pensamento do Departamento, que, durante o meu curso, foi dirigido por Márcio Aurélio, Waterloo Gregório e Tiche Vianna. Mas para isso tínhamos que estudar e apresentar alternativas à altura. Saí de lá com 21 anos e acho que quando bati tudo no liquidificador virei artista. Foi o período que o teatro deixou de ser só diversão e passou a ser ferramenta para mim. E eu tinha que fazer, dizer, mostrar, provocar, discutir alguma coisa e para isso utilizaria o que eu estava aprendendo a fazer bem e sabia que tinha poder... e que era divertido. Acho isso, que o artista é aquele que sabe usar sua arte como ferramenta e sente necessidade disso.
Letras em Cena: Você é do interior de São Paulo e aqui em São Paulo tem trabalhado em produção teatral ocupando diversos papeis entre produção, atuação e direção, assistência. Como é trabalhar em diferentes papeis, mas sempre servindo ao teatro?
No meu caso isso já se tornou uma característica. Primeiro tem a ver com o meu pai e depois com minha iniciação em teatro amador, formação como ator de grupo e, finalmente, com a profissionalização em um mercado como o de Campinas-SP, que é semi-profissional. Em situações como essas, quanto mais você souber melhor, tem a possibilidade de colaborar mais. Para mim não é nada de mais. Há muito tempo decidi não trabalhar por necessidade fora das artes, nem que tivesse que variar as funções. E, claro, me dou melhor com Teatro..
Aqui em São Paulo isso é bastante complicado, porque o mercado rotula você. Você é o que você está e não o que você faz. Então, se alguém conhece você produzindo ou dirigindo, por exemplo, jamais te convidarão para atuar, mesmo que tenham te visto em cena dois anos atrás. Porque você deixou de fazer aquilo. Então quando você quer pular de uma função para outra, acaba tendo um trabalho enorme para se colocar e quando você tem assumir um trabalho em uma função diferente da que quer no momento, tem de agir com extrema cautela e delicadeza. Tem que se cuidar o tempo todo.
Letras em Cena: Dá para dizer que uma das funções no teatro te agrada ou satisfaz mais que as outras?
O que mais lhe agrada no “fazer teatral?”
Prefiro as funções criativas e vivo em um conflito ferrenho entre a interpretação e a direção. Ultimamente venho pensando que na verdade não tenho que responder a essa pergunta. Tenho conseguido me expressar bem nas duas maneiras, apesar do meu trabalho como diretor tendo mais destaque em função dos espetáculos em que tenho trabalhado e como ator estar inserido em um segmento mais alternativo, o que nos leva de novo ao trânsito comentado na questão acima. Mas acho importante dizer que todas as coisas que faço em teatro vieram da função de intérprete. Através de minhas atividades e credibilidade como ator conheci pessoas, me inseri em diferentes setores, conheci diversos modelos de produção e descobri novas funções. A direção, no meu caso, é um desdobramento da interpretação. Acredito que quanto mais eu consiga dominar os mecanismos e elementos do Espetáculo como diretor, saberei manipulá-los depois, como intérprete. E gosto de atores. De perceber como os outros atores funcionam. De administrar seus conflitos, de conduzi-los no momento da criação. Gosto de lidar com pessoas.
O melhor do fazer teatral é o processo. O período de ensaios. São os momentos mais marcantes, que ficam na memória. Tudo é ali. Quando enfrentar algum problema com seu papel durante a temporada é lá que terá que voltar. Para a hora da descoberta.
Letras em Cena: Como você avalia a produção cultural (especialmente teatral) em São Paulo?
São Paulo está uma loucura. Acho que é uma das grandes babilônias mundiais da cultura. Em termos de trabalho, possibilidades e oportunidades não dá para reclamar. Como consumidor muito menos. Estamos vivendo uma época em que os meios e modos de produção estão evoluindo muito mais rapidamente que os de criação artística. Estamos em uma época de grandes eventos. Um filme não é mais lançado sozinho, mas aguarda uma grande mostra de cinema como a de São Paulo ou do Rio. Um grande show não vem mais sozinho, mas dentro de mega festivais de música que levam o nome de seus patrocinadores como o TIM, o Claro, o Motomix, o Campari e agora, o Terra. É mais bacana ir a uma exposição no MASP agora, porque vou ver o Goya e, de quebra, levo junto o Darwin, quer dizer, são pacotes, nem sempre coerentes. E no teatro, temos o Festival de Curitiba e todos os outros que vieram depois dele. Temos a proliferação dos musicais, a busca de novos nichos de mercado, o aumento em massa da produção de teledramaturgia, que busca profissionais no teatro. Temos o SESC que vem cada vez mais firmando sua postura frente ao público como fomentador de diversas cenas e como selo de qualidade. É a globalização da cultura e, nela, quem dita as regras são as boas e rentáveis idéias, as ações, ou seja, os produtores. E também a tecnologia. Os anos 2000 são a nova era do showbusiness. Estamos no período em que o marketing cultural foi descoberto, o período em que as pessoas descobriram que a cultura é um bem de consumo. Isso tudo, ao contrário do que possamos ouvir tem muitos prós, pois se reclamamos de altos preços e de uma carga muito pesada de ofertas, temos acesso. Temos o direito de escolha e, principalmente a necessidade de buscar alternativas. Digo isso, porque acredito que todo esse movimento fortalece também a cena alternativa e independente da arte. E para isso, as políticas públicas para distribuição de subsídios são muito importantes.
Hoje em São Paulo, temos uma cena de grande ecletismo. Podemos notar nos últimos anos a proliferação de aparelhos culturais bem equipados, de grande porte ou alternativos. Clubes, teatros, salas de cinema, galerias. O jeito de brigar contra esse movimento massificante é oferecer novas opções e, para isso, a cena independente tem que se tornar mais criativa, especializada, sintonizada com o mundo e menos preconceituosa. Em São Paulo, para falarmos somente de teatro, estamos vivendo essa possibilidade. É comum ver artistas inseridos ao mesmo tempo em grandes espetáculos do circuito e em produções alternativas menores, como por exemplo, as da Praça Roosevelt. Esta por sua vez, é cult, está ficando chique. Estamos perdendo as fronteiras, mas para que as queremos? Estamos ainda em um período de transição, então, deixemos o pau quebrar para ver onde vai dar.
Letras em Cena: O que você acha essencial para um ator?
Formação, Prática, Cultura, Disponibilidade, Consciência, Postura, Responsabilidade e Personalidade. E saúde claro, senão o ator não vale nada. É claro que cada um procura essas coisas onde bem quer. Acho que cada um tem um tempo de desenvolvimento e esses itens todos são passíveis de desenvolvimento durante toda uma vida. Mas você tem que saber o que quer buscar, onde quer chegar, que espécie de artista quer ser.
Letras em Cena: O que você costuma ler?
Sou geminiano, acho que por isso ler é algo que faço sem critério, com o maior ecletismo e sempre com mais de uma obra ao mesmo tempo. Há uns dois anos tenho me dedicado a ler grandes clássicos da literatura e da humanidade, apanhado dos quais fazem parte, por exemplo, a Odisséia e a Bíblia Sagrada, que estou na metade. São dois casos completamente diferentes, mas com pontos fortes em comum. São épicos, que contam a história de um povo. Mas também gosto muito dos novos, haha... e de biografias. Para dar uma idéia da mistura de assuntos e formatos, posso fazer um brainstorming de autores, que fizeram parte de meu último ano, alguns deles lidos aqui mesmo, no Letras: Hakin Bay, Dráuzio Varella, Legs McNeil, Lester Bangs, Dib Carneiro Neto, Rodrigo Fregnan, Christine Röhrig, Nick Toshes, Truman Capote, Rafael Alberti, Guimarães Rosa, Clarah Averbuck, Nick Farewell, Arnaldo Branco, Xico Sá, Carlos Drummond de Andrade, Camus, Aristófanes, Edmond Rostand, John Fante, Pirandello, Neil Gaiman, Andréa Del Fuego, Brecht, Eurípedes, Luther Blisset, Hunter S. Thompson, Pedro Juan Gutiérrez, Rilke, Bernard Dort, Alison Bechdel e outros mais.
Letras em Cena: Você tem acompanhado muitas mudanças nas produções teatrais, tais como a Lei Rouanet, Lei Mendonça, Programa Municipal de Fomento para a cidade de São Paulo e agora o PAC estadual... Qual sua opinião e avaliação sobre estas políticas?
A verdade é que através desses meios ainda não aprendi a captar o dinheiro e sim a gastá-lo bem. Explico, nunca trabalhei com nenhuma dessas leis ou programas como proponente de um projeto e sim como diretor de produção ou produtor executivo. Todas as minhas iniciativas ou contaram com um investimento próprio ou com um patrocínio direto. Sobre as leis de incentivo, a crítica direta que tenho a fazer com relação à lei Rouanet é aquela de que ela permite que o poder de curadoria e seleção de projetos fique a cargo dos departamentos de marketing das empresas patrocinadoras. Isso é muito ruim. Acho mais bonito e claro como fazem instituições como o CCBB, o Centro Cultural da Caixa ou mesmo o SESI e o Festival da Cultura Inglesa com os editais. Sou a favor dos editais. Sendo assim, acho o PAC uma das boas novidades dos últimos anos, ainda mais que vale para todo o Estado. A lei Mendonça para mim é uma lenda urbana. Nunca vi um espetáculo produzido via essa lei. Quanto ao Programa de Fomento, acho uma grande coisa. Estou um pouco por fora de sua estrutura de funcionamento, mas em 2003, quando eu era Delegado de Cultura do Orçamento Participativo de Campinas sabíamos que era um modelo a ser observado. A criação do Programa deu credibilidade e um novo gás ao teatro produzido por grupos. Acho chato ter que pensar na filiação à Cooperativa Paulista de Teatro como um critério fantasma para a seleção de projetos. De qualquer maneira, seria legal contar diretamente com o apoio do Programa um dia.
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| Débora Falabella e Mônica Ribeiro em A Serpente |
Letras em Cena: Se fosse convidado a dar uma idéia sobre lei de fomento ou de renúncia fiscal para a produção teatral, o que diria?
Acho que também deveriam ser criados modelos de fomento e incentivo à cultura num plano regional. Investir mais na regionalização. O teatro do interior historicamente sempre foi frutífero. E o intercâmbio entre os grupos do interior e diretores da Capital seriam mais frequentes. Todas as grandes cidades têm suas periferias e, nelas nossos grupos não chegam. Os grupos locais é que tem que chegar. Outro dia assisti a um infanto-juvenil de Ribeirão Preto e era maravilhoso. Uma grande produção que não deixava nada a desejar a espetáculos daqui. Pensei: como é que fizeram isso? E se tivessem como fazer então?
Pensando nas leis e programas que você citou na pergunta acima, acho que devemos observar as leis de incentivo de outros estados brasileiros, como Minas Gerais e Rio de Janeiro, que se não me engano contam com a lei do ICMS, proporcionando o subsídio pela renúncia fiscal desse imposto. Em São Paulo, iniciamos um caminho também por ai.
Letras em Cena: Que conselho daria a quem está começando a trilhar os caminhos do teatro?
Os exemplos estão todos aí, basta ter cuidado em escolher os que vai seguir.
Letras em Cena: Você produziu por algum tempo o DRINK COM AS ESTRELAS? Uma sátira e tanto à fome de “estrelas” e celebridades que permeia as mentes comuns contemporâneas. Como foi esta experiência e quais serão os próximos passos deste projeto?
Drink com as Estrelas é um projeto criado pela Cia Aberta de Teatro, que é uma companhia fundada em Campinas no ano de 2002, e da qual sou diretor artístico. Agora agimos aqui. Sempre procuramos atuar frentes diferentes. Uma dessas frentes, são iniciativas mais anárquicas, informais e provocativas. Muito mais ligadas ao espírito do happening e da performance. O Drink faz parte desse caso. Surgiu a partir de uma série de intervenções criadas especialmente para o SESC que consistia em três atores realizarem um programa de TV nos moldes de Ana Maria Braga para falar de cuidados com a pele no verão. Para fazer a apresentadora, não tivemos saída a não ser criar Odilon Alleyona, um apresentador up to date, meio homem, meio mulher, que eu definiria como um bufão inspirado na noite interiorana. Uma Hebe moderninha. O personagem ficou tão popular que logo pensei em fazer uma versão para um espetáculo humorístico alternativo. Comandado pela Alleyona, o primeiro Drink com as Estrelas era apresentado uma vez por semana, às terças, e nele, um grupo de oito atores desempenhavam diversos personagens. Nele, satirizávamos a programação imediata da televisão, citando ou parodiando quadros que aconteciam durante a semana. Entre os quadros, a brincadeira era elevar pessoas do público à condição de estrelas daquela noite a partir de sua participação no programa.
Depois de anos, ao reeditar o programa em São Paulo a coisa tomou rumos diferentes. As principais mudanças foram: 1) A diminuição do elenco para apenas dois atores (Julio Razec e eu); 2) A substituição de atores por artistas de outras vertentes (vjs, djs, fotógrafos, designer, webmaster, jornalistas, stylists etc), dando ao grupo um caráter de “coletivo”; 3) A possibilidade de contar com estrelas “reais” no quadro de convidados; e 4) A possibilidade de utilizar a Internet como meio de divulgação e difusão desse trabalho. Ainda tínhamos a proposta de elevar anônimos à altura de estrelas, e no final, a coisa ficou assim: um programa que tinha como QG e principal ferramenta de comunicação o Orkut, gravado uma vez por semana às quintas-feiras em um bar badalado da Rua Augusta. Dois personagens (Odilon Alleyona e Ramón, o latin lover) comandaram o programa, acompanhados sempre de um DJ convidado. Em sua namoradeira, Odilon passou a receber os convidados, cerca de três por programa, que concederam entrevistas bem humoradas sobre assuntos diversos. No meio disso, o público. Em 18 programas (15 realizados em São Paulo e 3 em Campinas) o segundo Drink recebeu cerca de 100 convidados especiais. Todos os programas foram fotografados e registrados em vídeo, e agora esse material está sendo disponibilizado via Internet.
Estamos tendo um bom resultado, mas acho cedo para falar de uma terceira temporada. É um projeto muito pessoal e me desgasta bastante, pois desempenho várias funções, sem falar da grana. Mas ainda temos muito conteúdo para trabalhar e ao certo ficará em cartaz por muito tempo na Internet. Acho que uma experiência nessa mídia é necessária. Penso que estamos produzindo algo realmente Pirata. O conceito de pirataria está um pouco derrubado por nos referirmos a ele para falar de cópias, plágio, venda não autorizada. Eu falo de uma pirataria mais chique. Venho da cultura das rádios livres. Falo de uma intervenção sem concessão. Para conhecer melhor o projeto basta acessar os sites www.myspace.com/drinkcomasestrelas, www.youtube.com/drinktv ou mesmo a comunidade “Drink com as Estrelas”, no Orkut.
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